Uma partitura escrita com CIFRAS (em inglês, lead sheet) é composta por uma pauta na clave de SOL com uma melodia e os símbolos dos acordes, cifras, escritos sobre a pauta (às vezes, abaixo da pauta). Normalmente, o pianista toca a melodia com a mão direita, e cria, na mão esquerda, um acompanhamento segundo as notas especificadas pelas cifras.
Fake books é o nome dado aos livros cujas partituras são escritas dessa forma. A música popular e as partituras para teclado são assim produzidas.
Também é possível cifrar uma peça escrita em duas pautas. É muito usado como técnica de memorização, porque ajuda a fixar a sequência dos acordes. Pode-se deixar de lado o arranjo feito, e criar o seu próprio arranjo a partir das cifras. Um arranjo é a forma como um executante organiza uma canção, tanto na forma quanto no estilo (formas de acompanhamento, ritmo…).
Como começar a tocar por cifras?
- Tocar, primeiro, a melodia com a mão direita, principalmente, se ela não é conhecida.
- Tocar, com a mão esquerda, apenas a fundamental de cada acorde.
- Depois, praticar, com a mão esquerda, os acordes em bloco (todas as notas executadas ao mesmo tempo) correspondentes a cada cifra.
- Tocar de mãos juntas: melodia + fundamental de cada cifra; melodia com acordes quando não houver mais dúvidas quanto às notas de cada um.
- Tentar manter uma pulsação constante. Não há necessidade de correr.
Para tocar bem por cifras é preciso desenvolver um trabalho que permita ao pianista executar quatro coisas apenas com duas mãos: a melodia, a harmonia, as notas do baixo e o ritmo.
Quais são as dificuldades que um professor, normalmente, encontra ao ensinar ritmo para um aluno inciante jovem/adulto?
Ritmo é a alma da música, por isso este conteúdo deve ser trabalhado cuidadosamente desde as primeiras aulas. A abordagem simultânea do ritmo (figuras e pausas de valores inteiros) e da pulsação (contada em voz alta e/ou sentida pelo aluno e percebida pelo professor) é fundamental para um desenvolvimento homogêneo, holístico e racional deste quesito por parte do aluno. Porém, por mais que a gente, como professor, se esforce para que seja natural a evolução dos conteúdos, alguns alunos vão apresentar uma ou outra dificuldade relacionada em um dos tópicos abaixo:
- pulsação: ensinar o conceito de pulsação e a diferença entre pulsação e ritmo. A necessidade de contar e sentir sempre a pulsação. Há alunos que têm dificuldade para manter constante a pulsação; outros não conseguem contá-la e tocar; outros nem pensam na pulsação antes de começar a música. Ajuda: trabalhar intensamente os valores inteiros antes de passar para as subdivisões.
- fórmula de compasso ternária: a tendência do aluno é esperar no tempo 3, transformando a fórmula em quaternária.
- realização de pausas: dependendo da abordagem inicial, alguns alunos nunca terão problemas para ver e realizar as pausas. Outros precisarão de algum tipo de alerta do professor para isto.
- colcheias: manter a visão do tempo inteiro enquanto executa 2 notas é uma abordagem interessante, que o aluno interpreta como um desafio. Na nossa experiência, até hoje, todos os alunos conseguiram realizar 2 colcheias em um tempo sem a necessidade da subdivisão “1 – e”. Importante: as colcheias só devem ser introduzidas para o aluno quando o professor estiver certo de que ele domina os valores inteiros.
- semínima pontuada: ao explicar a origem da semínima pontuada (semínima + colcheia), torna-se fácil para o aluno visualizar que o tempo seguinte à semínima se inicia no ponto de aumento, e que, logo depois de ele falar a pulsação do ponto, ele deve bater uma nota, a colcheia (frequentemente, a semínima pontuada é seguida por uma colcheia para completar 2 tempos).
AO ALCANCE DA MÃO
A maioria dos alunos adultos tem algum tipo de dificuldade ou restrição quanto ao posicionamento (fôrma) das mãos e/ou quanto à articulação dos dedos. Os motivos são vários, entre eles:
- Tensão (própria da pessoa, excesso de uso);
- Dificuldade para relaxar (mãos, braços, ombros etc.);
- Dificuldade para se concentrar;
- Doenças (lesões da mão por artrite, artrose, L.E.R., fratura, tendinite etc.)
Os exercícios de relaxamento/alongamento/concentração no início de cada aula e feitos pelo aluno em casa podem contribuir para a solução do(s) problema(s) ou minimizá-lo(s).
O posicionamento equilibrado e relaxado do corpo diante do piano é fundamental para o desempenho do aluno, pois facilita a leitura da partitura, o estado de concentração e a execução e o julgamento daquilo que é tocado. Mudanças e ajustes desse posicionamento ocorrem à medida que a música é executada. Eles devem ser conscientes e feitos de forma a facilitar a execução.
Outra observação sobre esse assunto é que os movimentos ao piano devem ser, desde o princípio, executados de FORMA RÍTMICA, uma vez que a maior parte das músicas é baseada em padrões de pulsos previsíveis. Há alunos que sentem e fazem isto naturalmente, mas há aqueles que necessitam de educação nesse sentido, para não incorrerem em execuções confusas, desajeitadas e aleatórias. Sons tocados com controle de energia resultam de um trabalho rítmico bem conduzido. O que o aluno e o professor vão colher é uma execução musical fluente e coerente, por mais simples que seja a partitura.
AJUDA:
- O professor estabelece 3 notas (p.e. dó, ré e mi);
- Professor estabelece o dedilhado (somente dedo 2; ou dedos 1-2-3) e qual mão usar;
- Estabelece a região a ser tocada (pode escolher apenas uma, 2 ou mais);
- Estabelece uma pulsação (“1 – 2 – 1 – 2…”);
- O aluno posiciona a mão (D ou E) e toca, seguindo o pulso (p.e. semínima=60).
Professor (conta): 1 – 2 – 1 – 2 – 1 – 2 – 1 – 2
Aluno (toca): dó ré mi
Experimentar outras contagens de pulsos (3/4, 4/4), outras velocidades. Acrescentar intensidade. Praticar com a outra mão. Praticar de mãos juntas, se possível.
Treinar os movimentos dos dedos fora do teclado é uma atividade recomendada para aqueles alunos que têm dificuldade de adaptação ao instrumento. Eles necessitam de mais tempo na fase de pré-leitura a fim de desenvolver: 1) mais envolvência com a música; 2) o movimento dos olhos e das mãos; 3) o raciocínio do processo de leitura.
AJUDA:
- Apoiar todo o antebraço sobre o tampo de uma mesa, com mão curva;
- Pontas dos dedos apoiadas sobre a superfície da mesa (polegar deitado, ligeiramente voltado para o dedo 2);
- Articular cada dedo 4 vezes, devagar, a partir da articulação proximal (aquela mais próxima do dorso da mão), articulando pouco (isto ajuda o aluno a ter mais consciência do movimento, controle sobre ele e diminui a tensão);
- Não quebrar a articulação distal (próxima à ponta do dedo). Ela deve permanecer firme.
AJUDA:
- Fortalecer e firmar a articulação distal:
- Apertar a ponta do polegar contra a ponta do dedo 2 (depois, dedo 3, 4 e 5), criando um “O”;
- Tocar as pontas de dois dedos (polegar e outro dedo), com leve pressão, acompanhando o ritmo de uma canção conhecida (cantar “Atirei o pau no gato”, “Noite Feliz” etc.)
Exemplo de outra atividade que promove a conscientização do movimento básico dos dedos, coordenação, memorização dos números dos dedos e vivência dos sons. Em cada mudança, ajudar o aluno a avaliar a sonoridade, o conforto da mão e da execução, e a aparência do movimento.
- Começar com MÃO DIREITA;
- Escolher uma sequência de dedos (p.e. 1 – 2 – 3 – 5 – 1 );
- Colocar a mão direita sobre a perna direita;
- Articular pouco cada dedo na sequência escolhida, e pressionar levemente cada dedo sobre a coxa. Praticar várias vezes;
- Posicionar a mão relaxada sobre qualquer sequência de 5 teclas e tocar o mesmo exercício (sequência 1-2-3-5-1), aproveitando para:
- Alterar o ritmo (parar na primeira nota, parar na última nota, parar na nota do meio, parar no dedo 5 etc.);
- Tocar repetindo 2 vezes cada nota (3 vezes); repetindo somente a primeira nota, somente a última etc.
- Tocar mais lentamente / rapidamente; muito lentamente / muito rapidamente;
- Tocar piano / forte; pianissino / fortissimo;
- Mudar a altura: grave, médio, agudo;
- Posicionar a mão na posição de MI (mi-fá-sol-lá-si), tocar a sequência (1-2-3-5-1) e deslocar a mão para a posição de FÁ, SOL etc., deslocando a mão para a direita, e tocando somente nas teclas brancas. Repetir deslocando a mão para a esquerda.
- Posicionar a mão em uma sequência teclas na qual estejam incluídas algumas teclas pretas (p. e., mi – fá# – sol# – si – mi). Experimentar outras possibilidades.
- Acentuar um dos dedos, mantendo a pulsação da sequência.
- Acrescentar pausas (de 1 tempo e/ou 2 tempos) entre algumas notas (p.e. dó – pausa – ré – pausa – mi – pausa – sol – pausa – dó);
- Acrescentar staccato em todas as notas, somente na primeira, somente na última etc.
- Combinar legato e staccato: ligar de 2 em 2 notas, de 3 em 3, terminando as ligaduras com staccato etc.
Por que o adulto decide estudar piano?
- Realização de um sonho;
- Estudou na infância/adolescência e quer retornar;
- Instrumento complementar de algum curso;
- Segundo instrumento;
- Ajudou ao filho e acabou se interessando;
- Para relaxar;
- Para acrescentar cultura;
- Aposentadoria e tempo livre.
Nos EUA, um estudo revelou que a previsão de alunos adultos, acima de 50 anos, crescerá mais de 70% no período 2000-2016, e abaixo de 50 anos, crescerá 1%. Não conhecemos esse tipo de estatística no Brasil, mas podemos dizer que, nesse período, no nosso estúdio aumentou cerca de 50% a incidência de alunos adultos acima de 50 anos.
Cerca de 2/3 dos alunos adultos prefere estudar em aulas individuais. O único fato contrário que encontramos a esse tipo de abordagem é que o aluno não tem outra referência que não seja ele. O professor deve preocupar-se em dar esse retorno de avaliação e respostas às curiosidades naturais do adulto. Livros que tratam do assunto (em inglês): Piano Lessons, Noah Adams; It’s Never Too Late, John Holt; Making Music at the Piano, Barbara Maris.
Atenção ao detalhe!
Incorporar os valores da percepção, nuances ouvidas, a riqueza harmônica dos arranjos etc. são os frutos da atenção ao detalhe. Cada acontecimento sonoro, no decorrer de uma música, é de extrema riqueza. Então, debruçar-se sobre o que está acontecendo, sem pressa, é um convite para descobertas e respostas. A atenção ao detalhe, que pode parecer uma pressão grande sobre quase nada, é a aproximação do objeto da nossa curiosidade, da música e do(s)instrumentista(s) ao nosso mundo e à nossa linguagem. É sempre bom considerar que existe muito mais do que percebemos, e se deixar levar por essa curiosidade (afetiva) pelas músicas.
Interpretação é a tradução dos valores, códigos de outro, por alguém que se propõe a entender a idéia, e vesti-la da sua compreensão. Ninguém, com respeito ao autor da idéia, irá, em sã consciência, violentar a mensagem da obra. Ninguém que perceba o detalhe de uma criação é desprovido da inteligência para valorizá-la. Ninguém que expõe a sua alma para “receber” as impressões de uma composição violentará as coordenadas que conduzem as emoções dessa inspiração. Tendo isso como máxima inegável, vemos o quanto perceber e enfatizar o detalhe é uma questão de conhecimento e compreensão da idéia.
Atenção ao detalhe! Toda maturação das informações que aproximam o avaliador/interprete do domínio da obra, da música, pavimentam a mais inspirada execução. Quando percebemos o detalhe, um processo interessante passa ocorrer ao “redor” dele. Tudo que cresce em ênfase para a nossa percepção, desencadeia uma rede de associações. Está iniciado o milagre do enriquecimento, da vestimenta que dará impacto ao resultado. Esse “crescimento” que gravita ao redor do detalhe, entre outras coisas, é também pedagógico. Conduz o estudante/avaliador/artista pelos caminhos subjetivos da singularidade daquela proposta. Sem essa dinâmica ( crescimento do detalhe), perde-se o aperfeiçoamento do todo.
Atenção ao detalhe é, entre outras coisas, um disciplinador da nossa “inteligência progressiva”. Esta, que só habilita o domínio se for consequente e é beneficiada pela disciplina da contemplação ao detalhe. Quando percebemos isso, estamos também oferecendo à obra, que é objeto de nossa análise, um efeito pessoal , artístico, com beleza e forma etéreas.
Atenção ao detalhe é um processo onde o respeito pelo mais cuidadoso, mais detido, ocorre em benefício do aperfeiçoamento da técnica, da expressão artística. Podemos especular sobre a perfeição, e sabemos todos que ela não nos é possível, mas quando, a atenção ao detalhe nos leva à proficiência, temos aí, em nosso vocabulário humano, um sinônimo (à nossa moda) para a perfeição.
Piano – som percutido
O fascínio que provoca na afeição humana, o piano, é algo de há muito conhecido. Algumas pesquisas trouxeram mais luz ao universo sonoro-harmônico do som percutido do instrumento. Com o viés mais investigativo da compreensão desse matiz com plasticidade cromática de densidade tão variável, chegou-se ao estado que motiva uma indagação: como pode um instrumento estar tão próximo da unanimidade como o piano?
Não há resposta objetiva para perguntas que abrangem tantos elementos. Mas, existem enfoques vários desse instrumento que é a ponte entre a realidade e magia.
A propriedade da mecânica (estrutura) da percussão, por si só, já deu ao instrumento uma personalidade que os outros não possuem em igual nível de destaque: a alma do balanço, do suingue! Sabemos que o predominante, que é a vida das composições, por causa do estilo, encontra-se nessa mensagem clara do balanço, da “dança”, inegavelmente, a alma da música. Nisso entra o piano, como nenhum outro, com uma carga tão rica de possibilidades, propondo a performance de uma bateria. Temos isso em músicas espanholas, tão intensamente marcadas, com virtuose em sua proposta, onde a sonoridade é percussão pura. Há tantas outras, com tempero afro etc.
A parábola formada pelo som: ataque, ascendência, pico, descendência e desvanecimento, mesmo em seu trajeto de curta duração, possui elementos de gama ampla. Ele, o som, atende os mais variados aspectos. Na sonoridade musical, excita os materiais que formam e circundam o piano em seu ambiente. Então, temos multiplicada a riqueza do timbre pelo circunstancial. No efeito de terapia, como nenhum outro instrumento, somando ao item da sonoridade musical rica já mencionada, temos um dos mais importantes para a alma da música: o balanço, suingue etc.
É sabido que a catarse, o derramar das emoções, é mais completa quando o movimento, a dança sonora da proposta, fica evidenciada. Se formos definir a música, como a pintura, o som está para as cores,e o balanço está para a vida, o movimento. Mesmo as cores sem muita harmonia dentro do tema, elas possuindo a proposta definida da “dança” do movimento, estará ali expressada a alma da obra. Vida! Nenhum outro instrumento permite uma riqueza de ataque do som com tantas variáveis. Por este motivo também o piano sampleado, digital, não consegue substituir o instrumento acústico. Um dos motivos, para o músico, é o momento do seu estado de espírito.
Todas as vezes que algo tolhe a sensibilidade/afetividade (emoções) do momento, esse algo bloqueia, empobrece a fluência da performance. Um detalhe pode roubar a presença da alma. Na improvisação, a percepção de cada um, de harmônicos percebidos, e que se salientam no timbre daquele musicista, é de extrema importância para a vida da execução. O detalhe, quando dominado, ancorado pelo executante, dá à interpretação da música o ápice da cereja no bolo. Outro recurso inigualável do instrumento, do som, é o volume.
Vai-se do sussurro à explosão do trovejar retumbante que ecoa em grandiosidade impar. Impossível de ser conseguido em instrumento sampleado. Isso possui íntima relação com a propriedade da parábola do som. As tonalidades então, no tempero da afinação, podem oferecer à precisão surpresas que encantam. Pode enriquecer algumas em detrimento da precisão de outras. E teremos na criação, improvisação, as menos temperadas para tensão mais acentuada da harmonia, dando mais dramaticidade, densidade na dissonância do contraste, quando caminhamos no desenrolar da poesia musical.


